Projeto Mulheres

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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Os cinquenta tons de cinza da mulher moderna

A trilogia Cinquenta Tons da inglesa E. L. James, pode ser explicado pela falta que as mulheres bem sentindo do macho. Independente dos gostos pessoais no plano sexual - o livro trata de sadomasoquismo - a descoberta do prazer pela protagonista nas mãos de um homem sedutor e dominador, me lembra o desejo, nem sempre expresso diretamente, de várias mulheres participantes do Projeto Mulheres, de quererem o  homem-macho ao seu lado.

Quem é esse homem-macho? no meu entendimento está longe de ser o homem autoritário e machista que é o que vemos por ai. É contra esse homem que as mulheres estão se impondo dia-a-dia; é contra essa dominação provinda de papéis sociais arcaicos, no sentido de antigos, que parecem não ter mais razão para muitos de nós. 


Ao longo dos meus estudos tenho compreendido que as mulheres vêm lutando corajosamente para tentar se colocar no ambiente público com iguais direitos ao homem. Essa luta, trouxe à luz os anos todos de submissão, dor e, em muitas casos, humilhação que as mulheres têm vivido por séculos. Somemos a isto o sentimento de indignação ao perceber as próprias escolhas erradas embasadas em crenças que não lhes são mais pertinentes. O resultado, muitas vezes, é a raiva.

Considero que muitas mulheres estão raivosas. E essa raiva, como é comum acontecer quando aflora, se expressa contra o outro. O outro, neste caso, é o homem. O culpado, para muitas, de toda a dor feminina. 

Este cenário está no ar. Está no nosso dia-a-dia. É assim que as mulheres assumiram publicamente, e descancaradamente, diga-se de passagem, a crença que são melhores que os homens. Crença que vem sendo construída há mais de um século, criando filhas mais independentes, criando homens mais dependentes, com menos capacidade de se virar no mundo. É só ouvir as mulheres falando sobre os homens e sobre si mesmas que esta realidade se torna contundente. 

E como fica o homem neste cenário? Enfraquecido. O homem atual tem muito de resultado das falas femininas que afirmam a superioridade da mulher sobre praticamente todas as coisas. Num mundo de hipervalorização do politicamente correto, como ir contra? Como se colocar sem parecer machista ou antiquado?

Acredito que a violência urbana e o femicidio tenha também a ver com isto. O  homem não aprendeu a se colocar no mundo moderno ainda. A se impor sem a força física ou a força do poder. A mulher também não tem contribuído para ajudá-lo nesta busca. 

O resultado são mulheres que sentem falta do homem-macho. O homem seguro, firme. Internamente, seguro e firme. Aquele que sabe. Aquele que acompanha. Aquele que é capaz de ser leal aos compromissos assumidos. Aquele que segura e assegura. Como ela sente que é capaz de ser. Especialmente nos momentos mais difíceis. Nisso que ela quer a igualdade. A mulher está cansada de seu papel de toda poderosa. De ser a Atlas que segura o mundo. É por isso que ela vem tentando despertar o homem-macho. 

O caminho da sexualidade, talvez seja o caminho novo - embora muito antigo - de tentar integrar esse homem-macho ao seu companheiro. É despertar nele aquele homem que é capaz de tomá-la nos braços e a fazê-la mulher.

domingo, 13 de maio de 2012

Somos filhas de nossas mães, queiramos ou não


Hoje é dia das mães e por isso minha reflexão sobre o peso delas nas nossa vidas. Além de sermos filhas - com todo o peso genético, físico, emocional e moral disso - somos também mulheres, iguais a elas.

No Projeto Mulheres e no Projeto Homens, a relação com a mãe mostrou-se um dos pontos cruciais para as decisões de vida tomadas pelos entrevistados, mesmo que a maioria, nem se dera conta dessa importância. 

Com a transformação do papel social da mulher nas últimas seis décadas, nossas mães sofreram na pele a abertura de um novo modelo, de quebrar formas antigas de participação social. Sofreram com o peso social da ruptura. Isso gerou mães fortes, as vezes duras, outra frágeis e temerosas; muitas infelizes e outras alegres e leves; algumas irresponsáveis, outras, excesso de responsabilidade; algumas incrédulas com o amor e a sociedade, outras fortalezas de fé e esperança. Algumas protagonistas de suas vidas e outras no papel de vítimas,  responsabilizando os outros pelas decisões tomadas.

A relação mãe e filha é mais difícil do que muita mulher gosta de admitir. Mas nas entrevistas, num ambiente seguro isso fica claro. Muitas tentam fugir do modelo materno, correndo na direção contrária, sem compreender que mesmo longe, esse modelo ainda lhes persegue e rege suas decisões. As crenças e os medos das nossas mães latejam insistentemente na nossa mente e no nosso coração. A crença sobre o masculino costuma vir delas. Portanto, essas crenças dominam nossa forma de relacionamento romântico. É um perigo se não temos consciência disso. Mais ainda quando, como o Projeto Mulheres mostrou, é um dos maiores anseios femininos, amar e ser amada por um companheiro.

Revisitar a mãe é revisitar nosso feminino. Conviver, hoje em dia, para mim, é a melhor forma de curar feridas. A distância, oculta, disfarça mas, no meu entendimento de hoje, contribui pouco para a cura. Embora, devo admitir, haja momentos que fugir pareça a melhor coisa a se fazer. Para conviver de verdade, estando com nossas mães, ouvindo, trocando e não somente falando socialmente com elas, temos que estar prontas em ver em nós essa mãe se manifestando. Ver que muitos de nosso atos são a lembrança viva das nossas mães. Nem sempre estamos prontas para isso, sei bem. Nesse caso, tudo bem. Se dê um tempo. Mas lembre que a hora tem que chegar, para o bem seu e das próximas gerações femininas da sua família.

Um caminho de reconexão é ver o mundo através do ponto de vista delas e entender que fizeram o melhor, e aceitar o livre arbítrio que tiveram em fazer de suas vidas o que fizeram. Algumas são exemplos estimulantes, brilhantes; em outros exemplos do que não faríamos, mas em ambos os casos é justamente por  elas serem assim, que somos como somos. 

Honrar a mãe, para mim, hoje, mais do que um peso moral, é um compromisso de cura com a minha feminilidade, com meu lado mulher, com a minha existência.